Um novo olhar sobre as coisas: Educação para ver e aprender

por Heloísa Helena Costa / Curadora da Exposição

A exposição AUGUSTE RODIN, homem e gênio apresenta 62 obras do escultor, cedidas em regime de comodato, ao Palacete das Artes – Museu Rodin Bahia. Esse museu tem como primeira missão trabalhar com base no conceito de museu integral, preconizado na Declaração de Caracas (1992), colocando-se à disposição da sociedade para promover um diálogo cuja amplitude traspassa a arte da escultura e procura desenvolver ligações profundas com a vida humana em sociedade, através de métodos holísticos e transdisciplinares.

Isso significa, que a obra de Auguste Rodin será uma fonte estimuladora de sinapses entre as artes plásticas e a sociologia, a anatomia, a medicina, a literatura, a neuroarte, a psicologia, a filosofia, entre outras. Todas essas conexões possíveis têm, na verdade, a intenção de interagir e de influenciar diretamente na qualidade de vida da população, pois fica entendido que quanto mais a arte, a cultura, a ciência e a tradição forem difundidas entre os cidadãos, mais haverá possibilidade de se ampliar os horizontes de uma cultura de paz, de reverência à vida e de elevação do espírito humano.

A consolidação de sociedades mais humanizadas e avançadas tecnologicamente tem por base a qualidade dos valores culturais, artísticos, históricos e educativos com os quais as sociedades se formam, tal como se expressa Edgar Morin, ao estabelecer que existem buracos negros perturbando a plenitude do processo educativo e consequentemente não permitindo uma boa formação cidadã, com ética, responsabilidade, conhecimento e compreensão do outro. Afirma Morin:

“Portanto, o ensino por disciplina, fragmentado e dividido, impede a capacidade natural que o espírito tem de contextualizar. E é essa capacidade que deve ser estimulada e desenvolvida pelo ensino, a de ligar as partes ao todo e o todo às partes.”

Assim, a segunda missão do Museu Rodin Bahia, inserido no Palacete das Artes no coração do bairro da Graça, em Salvador, Bahia, é potencializar a excelência da instituição cultural, promovendo maneiras transdisciplinares de se conhecer e compreender a arte, a história, a ciência e a cultura. Tal promoção objetiva potencializar a integração disciplinar de tal maneira que todo e qualquer visitante se sinta tocado, influenciado e motivado a refletir, a agir e a desenvolver seu próprio potencial de talentos em busca de crescimento individual e, também, coletivo.

“Arte é contemplação – É o prazer da mente que penetra a Natureza e descobre o espírito que anima. É a alegria da inteligência que vê o universo com clareza e o recria, dotando-o de consciência. A arte é a missão mais sublime do homem já que é o exercício do pensamento tentando compreender o mundo e torna-lo compreensível.” Auguste Rodin, in A Arte, Conversas com Paul Gsell.

Estabelecendo um diálogo entre os pensamentos de Rodin e Morin, foi possível perceber uma terceira vertente da missão do Museu Rodin Bahia, que é tornar os objetos compreensíveis através do exercício do olhar. A palavra compreender, de origem latina, significa “colocar juntos todos os elementos de explicação”, isto é, não ter somente um elemento de explicação, mas diversos. Se a compreensão humana comporta uma forte dose de empatia e de identificação, então o Museu Rodin Bahia tem a grande missão de interagir com o público, fazendo com que esse descubra a Beleza, a Poesia, o sentimento que emana da obra de Rodin, fazendo com que o mais mortal e simples visitante compreenda o mundo e os seres que nele habitam.

“A Beleza está em todas as partes, dizia ele (Rodin). Não é ela que faz falta a nosso olhar, mas é nosso olhar que não sabe percebe-la. A beleza é o caráter e a expressão. Ora, nada mais há na natureza que tenha mais caráter que o corpo humano”. Auguste Rodin.

Graças ao pensamento de Rodin, do qual são apresentadas aqui duas gotas benfazejas, pode-se inferir que a quarta vertente da missão do Museu Rodin Bahia é possibilitar a formação de um novo olhar sobre as coisas. Um olhar holístico, um olhar compreensivo, onde a escultura será a mola propulsora de compreensão da sociedade, na qual os objetos têm sido formados.

Em seu conjunto é uma missão que tem caráter inovador.

Inova, indo além das funções históricas, museológicas e pedagógicas, para introduzir os princípios da cultura da Paz e do desenvolvimento cultural integrado ao processo global de desenvolvimento da cidade.

O Museu Rodin Bahia, um espaço para criação, fruição e formação cultural, está estruturado em um contexto diferenciado, no qual a integração entre arte e natureza seja instrumento impulsionador de reflexão sobre a arte na cidade, a cidade com arte, a cidade saudável, tagarela, risonha e criativa, a cidade segura. Isto porque, ao admirar e analisar as obras de Rodin, o público pode vir a ganhar consciência da incrível complexidade e beleza do corpo humano, percebendo-o, como dizia Rodin, “como elemento de personalidade, de caráter” e, portanto, merecedor de reverência. A reverência ao corpo e, consequentemente, à vida que pulsa nele, transformar-se-á em atitude de respeito e de paz, sendo possível até supor uma redução da violência, que se apresenta sob variadas formas ao ser humano e à cidade.

Nesse sentido, a exposição enfatiza a obra de Rodin, oferecida ao publico em design expositivo que visa dar leveza à apresentação. A escolha dos materiais, vidro e acrílico transparentes, conjugados de forma agradável e discreta harmoniza-se com breves textos explicativos para que o público faça sua descoberta pessoal e crie intimidade com o artista.

Além disso, e acompanhando as tendências da pesquisa científica no Brasil e no mundo, o Museu Rodin Bahia é também um território propicio à fecundação da “neuroarte” no campo das artes plásticas, com ênfase na escultura.

Dessa maneira, a obra de Rodin, que é um exercício fantástico de compreensão da anatomia humana, pode ser incentivadora não apenas da arte em si mesma, mas também da pesquisa científica. A interação entre artistas e cientistas é, cada vez mais, uma tendência mundial, desde que se percebeu o potencial da arte (seja ela plástica, musical ou literária) de contribuir para o pleno desenvolvimento do ser humano, formando competências e habilidades específicas que lhe abrem oportunidades de raciocínio ilimitadas, já que inúmeras conexões cerebrais podem ser articuladas e oferecer ao individuo pensante a chance de melhor solucionar problemas, de propor a si mesmo infinitas questões de vida pessoal e profissional, de amadurecer um olhar sobre a sociedade em que vive e sobre seu semelhante.

Assim, foram convidados um filósofo e um artista para a produção dos textos que se seguem, estimando-se que o olhar científico e o artístico de cada um tenha impacto na formação do leitor, motivando-o a fazer uma imersão na rica e criativa vida do homem e do gênio Auguste Rodin.

Palacete das Artes - Rodin Bahia
Rua da Graça, 289 - Graça
40150.060 - Salvador, Bahia, Brasil
Tel.: +55 (71) 3117-6987 / 6910